Decibelímetro no Carro de Boi

February 1, 2014

Essas fotos e vídeos foram feitos nessa sexta-feira, 17/01/2014, por volta das 23:40, 40 minutos após eu ter ligado para a patrulha ambiental da prefeitura municipal de Uberlândia (0800-940-1133).
Eu coleciono números protocolo, mas nunca fez nenhum efeito ligar lá. Como vocês podem ver, o decibelímetro (que eu comprei para este propósito específico) varia por volta de 74 dB, (somente pinga abaixo de 70). Esse é o som do Carro de Boi medido do outro lado da avenida.

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Para referência: nunca é permitido ultrapassar 70 dB no ambiente exterior ao recinto, e no período da noite (após às 22 horas) é proibido ultrapassar 60 dB (Lei Estadual 7302, de 21/07/1978, http://www.almg.gov.br/consulte/legislacao/completa/completa.html?tipo=LEI&num=7302&comp=&ano=1978&aba=js_textoAtualizado#texto )

“DMCA takedown notice” aqui no Brasil!

July 18, 2013

Quem acompanha sites escusos de pirataria pela Internet, já deve ter ouvido falar do famoso DMCA notice, que é um provisão da lei estadunidense que permite que detentores de copirraite exijam a retirada de conteúdos alegadamente seus publicados na Internet, sem ordem judicial, e ainda serem obedecidos!

Aparentemente uma abominação parecida acabou de entrar soturnamente no projeto de lei do nosso Marco Civil da Internet: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/07/o-lobby-da-globo-contra-o-marco-civil.html

Bem, sugiro fortemente seguir a recomendação do Sergio Amadeu e enviar um e-mail para o relator (deputado Alessandro Molon, dep.alessandromolon@camara.leg.br) exigindo a retirada do parágrafo.

Segue o que eu mandei (CC0):

Sr. Deputado Alessandro Molon,

Como cidadão preocupado com a integridade e o futuro da Internet, ferramenta esta que sorrateiramente revolucionou a educação, comunicação e principalmente, a liberdade e a democracia no mundo (e só quem pôde prever tais mudanças era quem dantes não tinha forças para ser ouvido), venho por meio deste solicitar a manutenção da integridade do artigo 15 da PL 2126/2011, lei esta que quando aprovada, será um precedente histórico para a humanidade, referência na manutenção dos direitos humanos e liberdade, na contramão de todas as leis da Internet vistas até hoje no mundo, que tentam debilmente relegar o controle da Internet e às tradicionais instituições que sempre detiveram o controle da comunicação.

O artigo 15, aquele que isenta os provedores de danos causados por conteúdos de seus usuários exceto em caso de descumprimento de ordem judicial que identifica clara e especificamente o conteúdo ofensor, é essencial para evitar prática de auto-censura por parte dos provedores. A inserção de um parágrafo que excetua dessa condição (a necessidade de uma ordem judicial) um caso alegado de infração de direito autoral desvirtua completamente o sentido do artigo. Porque violação de direito autoral não exigiria ordem judicial mas crime de injúria sim? Porque grandes criadoras de conteúdo teriam mais direito que um cidadão comum? Porque cabe ao defensor (a provedora de conteúdo) o ônus da prova de que não está violando direito autoral, e não ao acusador da contravenção, que poderá levar a provedora à justiça caso descumpra sua ordem corporativa de remoção de conteúdo?

Então, pelo bem da integridade conceitual do artigo 15 da PL 2126/2011, a até de todo o Marco Civil da Internet, solicito a retirada do parágrafo 2º do artigo 15 denunciado por Sergio Amadeu no artigo
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/07/o-lobby-da-globo-contra-o-marco-civil.html, publicado em 16 de julho de 2016.

Announcing libestream

May 10, 2013

Block ciphers, like AES, are not the best thing around for secure communication, for they require an mode of operation in order to be properly used — which adds complexity, thus is itself a source of problems, see, for instance, the BEAST attack. Also, block ciphers are designed with reversibility guarantees that makes their execution cost very high compared to specialized solutions for communication: the stream ciphers.

But the only stream cipher algorithm in widespread adoption by 2013, called RC4, is old and broken in many ways. Due to its weakness, WEP WiFi protection is broken. While many cryptosystems relies on it for security, RC4′s shortcomings are rendering these systems increasingly fragile, specially due to its recent surge of popularity when people could not count on AES on SSL anymore due to BEAST attack, exposing RC4 to even more cryptanalysis.

To offer an alternative to RC4, European Union’s ECRYPT launched the eSTREAM project in create/find, analyze and select the next generation of stream ciphers suitable for widespread adoption. The project was concluded in 2008 and recommended 4 stream cipher algorithms suitable to be implemented efficiently in software: HC-128, Rabbit, Salsa20/12 and Sosemanuk.

Despite the time since initial publication of eSTREAM, their adoption goes at very slow pace, with very few implementations besides the reference one. In a modest attempt to encourage the adoption and facilitate the usage of these algorithms, I have developed libestream. It is a free pure C library featuring all the eSTREAM software profile algorithms written from ground up based on the specifications. It provides a clean interface directly to the algorithms output and a more general interface that buffers their outputs and apply sequentially to stream chunks of any size.

It also features, for sake of completeness, a partial implementation of UMAC, a message authentication code (MAC) algorithm, that together with any of the ciphers are sufficient to sign/authenticate the chunks of (or the whole of it) encrypted stream, considering that stream ciphered messages should not be transmitted without a secure authentication method.

Anunciando a libestream

May 7, 2013

O algoritmo de criptografia mais importante da atualidade, o AES (Advanced Encryption Standard), também conhecido como Rijndael, faz parte de uma categoria chamada de cifradores de bloco. Eles têm esse nome porque operam sobre conjuntos de dados de tamanho fixo: os blocos. Cada bloco — de 128 bits cada, no caso do AES — é cifrado/decifrado individualmente com uma chave secreta. Cada 128 bits gerados pelo processo de cifragem pode ser revertido a 128 bits do texto original usando-se a mesma chave no processo de decifragem.

Da natureza dos cifradores de bloco deriva-se um problema imediato: e se as mensagens forem maiores que o tamanho do bloco? Com frequência, o que deve ser cifrado é maior que 128 bits, então viu-se a necessidade de se definir os modos de operação, como o CBC (cipher-block chaining) ou o CTR (counter). Ao contrário do que pode parecer a princípio, simplesmente dividir a mensagem em pedaços de 128 bits e cifrar cada um separadamente (modo de operação ECB, electronic codebook) não é uma boa ideia: toda a vez que um mesmo pedaço da mensagem é cifrado com a mesma chave, o resultado é o mesmo padrão de bits, o que pode revelar a ocorrência de padrões repetidos dentro da mensagem original.

Os outros modos de operação resolvem esse problema, ou encadeando de alguma forma os blocos, como faz o CBC, propagando a entropia dos blocos anteriores e ocultando qualquer tipo padrão, ou o modo CTR, que transforma o cifrador de blocos efetivamente em um cifrador de fluxo, onde este é utilizado para gerar uma sequência de bits arbitrariamente grande, aparentemente aleatória, de distribuição estatística normal, que quando aplicado com uma função reversível à mensagem (como a KGB fazia com os one-time pad) a oculta até que a operação inversa seja feita.

Acontece que muita gente usa o AES no modo CTR, um algoritmo grande e complexo, feito para operar em blocos e com garantia de reversibilidade, simplesmente para imitar um cifrador de fluxo, que são algoritmos muito mais simples e rápidos de se computar, especificamente desenvolvidos para operar desta maneira.

O mais conhecido dos cifradores de fluxo é o RC4, um algoritmo extremamente simples, porém antigo e com várias falhas de segurança (falhas estas que permite que redes WiFi protegidas por WEB sejam facilmente invadidas, por exemplo), mas que em muitas situações acaba sendo utilizado por falta de alternativas. Isso acontece na própria Web, nas conexões seguras HTTPS, seja por questões de performance (cifradores de bloco são mais lentos e complexos) ou por causa da falha que encontraram no modo de operação do SSL/TLS (que afeta o AES, por ser um cifrador de bloco, tornando-o inseguro), muitos sites ainda utilizam o RC4, inclusive os maiores (Goolgle, Facebook, WordPress e Wikipedia incluídos, bem como muitos bancos), já que ele é o único cifrador de fluxo disponível nesse tipo de conexão.

Mas o RC4 não é o único desta família de algoritmos de criptografia. A exemplo do que foi a competição do AES, que selecionou o Rijndael e o tornou o mais usado algoritmo de cifragem de blocos do mundo, uma outra competição, chamada eSTREAM, realizado de 2006 a 2008 por um órgão da União Européia, teve por objetivo avaliar, selecionar e recomendar para o mundo os melhores cifradores de fluxo disponíveis. Essa competição teve quatro vencedores na categoria software (isto é, excelente performance quando implementados em software): Rabbit, HC-128, Salsa20/12 e Sosemanuk.

Numa modesta tentativa de divulgar, incentivar e facilitar o uso destes algoritmos em detrimento do RC4, que é fraco, e, onde cabível, do AES, que é lento e complexo — e complexidade deve ser levada em consideração: a necessidade de se usar um modo de operação custou a segurança dos cifradores de bloco no SSL e na Web — eu desenvolvi a biblioteca libestream.

Libestream é uma pequena biblioteca de software que implementa, sob domínio público (e portanto, software livre), em C portável, os quatro algoritmos selecionados pelo eSTREAM na categoria software, além do algoritmo UMAC para autenticação de mensagem, necessário a qualquer sistema de criptografia para garantir a integridade da mensagem, mas especialmente importante no caso de cifragem de fluxo, que é particularmente suscetível a falsificações.

Com isso, espero prover um conjunto mínimo e auto-contido de ferramentas suficientes para se desenvolver sistemas criptográficos baseados em cifragem de stream. Mas se isso for trabalho demais e você só quiser se comunicar com segurança via sockets TCP, a biblioteca ainda oferece um protocolo simples, pronto para usar, que cuida de cifrar, assinar, decifrar e verificar as mensagens para você.

Income Right: o Copyright melhorado

March 21, 2013

Essa é uma ideia que eu tenho a muito tempo sobre a distribuição das “obras intelectuais protegidas” (esse é o termo usado na lei nº 9.610, dos direitos autorais), mas que eu nunca vi expressa dessa forma, e que poderia ser uma solução interessante para a legalização da pirataria.

As leis de direito autoral variam pelo mundo; no Brasil, além do direito de cópia (“copyright”, em inglês) que existe em todas, a lei prevê os direitos morais do autor, que dá o direito legal à pessoa física do autor de ser reconhecido pela sua obra, não importa se a pessoa foi contratada ou não para realizar o trabalho, ou de quem detém os direitos de cópia e distribuição. Isso é um avanço que existe em nosso país e em alguns outros pelo mundo.

O princípio moral de que o autor tem o direito inalienável de ser reconhecido por sua obra não possui nenhum fundamento comercial ou financeiro, mas é aceito pelas pelas pessoas e, portanto, não deixa de ser um direito devidamente legalizado.

Também é totalmente aceito pelas pessoas o princípio moral de que os autores devam ser pagos por sua obra, fruto de seu trabalho e esforço. Daí deriva o direito de cópia previsto em Lei. Mesmo muitos piratas se vêm em situação não conseguir refutar totalmente esse princípio moral: existem vários argumentos contra, mas nenhum ataca essencialmente o ponto de que existem autores que trabalham arduamente em suas obras, não são ricos, precisam da sua receita como autores para sobreviver, e têm o direito de serem pagos por suas obras. Quando nós pirateamos Harry Potter, e nos preocupamos em explicar moralmente nossas ações, nós nos limitamos a dizer: “a Warner e a J. K. Rowling já são ricos o suficiente, não precisam de mais dinheiro”.

Bem, daí que eu trago mais um princípio moral comumente aceito, e que deveria, também, ser defendido pela Lei, mas não o é: o direito da sociedade de ter acesso irrestrito à cultura e informação. Toda e qualquer pessoa no planeta deveria ter direito irrestrito a qualquer livro, filme, desenho, peça de teatro, artigo científico, música, etc, que já tenha sido feito público um dia. Esse é o sentido da palavra “publicar”: dar ao conhecimento público, não restringir seu acesso, mas o contrário, encorajá-lo.

E o que temos hoje? Quando alguma obra intelectual é publicada, o que chega a nós, público? Livros de luxo superfaturados, livros esgotados, livros difíceis de conseguir, filmes que já saíram a um tempão em outros países mas que só chegaram aqui agora, filmes guardados em rolos na Cinemateca Brasileira que só quem tem um cinema devidamente equipado e recursos necessários para ir até lá retirar o rolo que podem assistir, discos de filmes com restrições geográficas para reprodução, discos de filmes e música que custam 50 centavos para serem produzidos mas são vendidos 100 vezes mais caros, e um caminhão de atrocidades do tipo que só a escassez artificial desses produtos poderia produzir.

E enquanto o copirraite deveria proteger a módica receita financeira do autor, ela cria a escassez artificial que restringe nosso acesso à cultura e informação e dá superpoderes às grandes organizações que controlam a indústria cultural e de publicações científicas. Escassez é um termo chave na economia; ela é um fator determinante no valor das coisas materiais. O exemplo clássico é o do diamante: se este fosse tão comum quanto areia, valeria tanto quanto vidro, mas como é raro, é caro. Mas o que aconteceria se todo mundo pudesse, ao pegar um diamante, duplicá-lo, de modo que a cópia fosse indistinguível do original? Quanto tempo demoraria para que qualquer um pudesse ter quanto diamante quisesse? Existiria escassez real de diamante?

O que eu chamo de “escassez artificial” se contrapõe com a escassez real que existe com diamante, comida, água, e praticamente tudo que é material: se tomarem de você, você fica sem. Já nas obras do intelecto, esta limitação é quase anulada pela tecnologia: custa muito pouco copiar um DVD ou uma foto digital, e a cada cópia feita, uma outra pessoa poderá se beneficiar da obra. Não há escassez intrínseca: podem ser criados quantos forem necessários, não há limitação natural para isso. Daí vem o copirraite para impor artificialmente essa limitação: só o autor ou aqueles por ele autorizado podem copiar, do contrário, terão de se ver com a Lei.

A proposta padrão do Partido Pirata inclui: diminuição do prazo de validade do copirraite e legalização da cópia sem fins lucrativos. Minha proposta é um pouco diferente, mas acredito ser mais fundamental: proibir explicitamente o controle artificial sobre a distribuição das produções e deixar o livre mercado agir. Basicamente, o “copyright” se tornaria um “income right”, o autor (ou qualquer um para quem ele tenha vendido os direitos comerciais) não teriam nenhum direito de restringir a cópia e distribuição de suas produções, mas por outro lado, se alguém o fizesse comercialmente, deveria pagar uma fração (predeterminada na lei) de seu lucro por unidade vendida ao detentor do direito comercial. Naturalmente, se a cópia ou distribuição fosse feita de graça, o autor não teria nada a receber, e a prática seria perfeitamente legal.

Desta maneira, o trabalho de distribuição seria uma atividade econômica separada, viável, regida pelas leis de mercado da oferta e da procura, totalmente dissociada do processo criativo. Qualquer editora ou gráfica poderia legalmente produzir e vender edições econômicas em papel mais barato de best-sellers caros em edições luxuosas. Qualquer distribuidora poderia distribuir o filme de qualquer estúdio. Serviços de distribuição online poderiam surgir e seriam restritos apenas pela sua qualidade.

O consumidor final pagaria pela conveniência do meio em que a obra foi distribuída, e não pelo preço arbitrariamente determinado pelo único autor. Há de se convir de que “file-sharing” não é um meio muito acessível para a maioria das pessoas; frequentemente é mais fácil pegar o filme na locadora, ou comprar o DVD copiado de algum camelô na rua (que a propósito, teria sua atividade legalizada, contanto que pagasse a parte devida ao autor). Legalizar somente a cópia sem fins lucrativos resolveria apenas parcialmente o problema, enquanto que legalizar a atividade comercial de piratas locais, conquanto os autores sejam devidamente compensados, tem uma abrangência social muito maior.

Não é uma questão de somente poder baixar as coisas por torrent, é uma questão de facilitar o acesso para qualquer um que queira ter acesso, mesmo que essa pessoa nem computador tenha. É uma questão de dar a milhares (milhões?) de obras que estão mortas e enterradas no anonimato o direito de serem publicadas por qualquer um que ache que elas valham o esforço, não importando o interesse e motivações do autor (que pode nem estar vivo).

Amigos de Bolso™ contra o BitCoin

January 6, 2013

Após um Amigo de Bolso™ do Izzy me apontar o link [ Dossiê HBD ] Bitcoins, a moeda do futuro (no presente é só uma piada mesmo), por ser de tantas maneiras impreciso e tendencioso, resolvi publicamente discordar e replicar nos pontos pertinentes.

Sendo um conhecedor do BitCoin, logo na introdução do artigo fiquei sem entender as alusões do tipo “pífia e juvenil tentativa”, “célebre motivo de chacota” e “lorota financeira comparável a Herbalife”. A alusão a lorota financeira se fez claro mais abaixo quando o autor descreveu sua visão sobre o tema, bem como a “chacota”, já “pífia”, “juvenil” ficaram injustificados, principalmente pelo fato de o próprio autor ter admitido a importância do BitCoin para atividades ilícitas. Pode não ser idônea, mas de maneira alguma é “pífia” ou “juvenil”.

O que é BitCoin?

Um erro menor do autor nessa seção foi dizer que BitCoin é uma moeda “criptografada”. Nada no protocolo do BitCoin é criptografado, nem há nenhuma necessidade implícita de criptografia para seu uso e funcionamento. Entretanto é uma prática comum para os possuidores de BitCoin criptografarem sua carteira para impedir acesso indevido, exatamente da mesma maneira que criptografamos arquivos importantes, comunicações de email e transações bancárias, o que portanto não justificaria chamar a moeda de “criptografada”.

Mas o erro principal foi outro: implicar que o criador do BitCoin tivesse objetivos conspiratórios ocultos aos criar a moeda, sem levar em conta o adjetivo correto que deveria ter sido usado em lugar de “criptografada”: “distribuida”. BitCoin é acima de tudo, uma moeda distribuída, sem nenhuma autoridade central, sem nenhum controlador implícito ou explícito. Toda a infraestrutura de software que possibilita seu funcionamento é livre, modificável e aberto para auditoria. O que evita fraudes é o consenso gerado pela rede BitCoin, ninguém ou nenhuma instalação especial de software ou servidores tem autoridade para ditar os rumos da moeda, criá-las espontaneamente ou alterar seu valor. Nem o criador, nem ninguém. O processo de funcionamento das BitCoins é completamente aberto, auditável e consensual; não tem ponto central.

Não importa os objetivos do criador do BitCoin, porque ele não tem mais nenhum controle sobre a moeda. Ela foi criada para ser incontrolável, e só ganhou popularidade por isso: não foi um cara que disse “ela não está sujeita a ninguém, confiem em mim”, foi que cada indivíduo que analisou a fundo seu processo de funcionamento e acreditou, atestou que assim o era (e ainda hoje mais e mais pessoas o fazem e o atestam).

Como as bitcoins (não) funcionam?

Essa foi a sessão mais errada e distorcida de todo o artigo, e de certo modo justifica a visão do autor de “lorota financeira comparável a Herbalife” sobre o BitCoin.

Explicando realmente como as BitCoins funcionam: você tem BitCoins em sua carteira, que pode ser um programa no seu computador ou uma conta em alguns dos sites que oferecem serviço de carteira BitCoin. Lá estão armazenadas suas BitCoins. Quando você quiser pagar por algum bem ou serviço, você coloca o endereço do destinatário, digita o valor a ser enviado, e clica para enviar a transação pela Internet. Dentro de alguns minutos sua transação será validada e confirmada pela rede.

No caso inverso, você tem dinheiro a receber, você clica em um botão na sua carteira para gerar um endereço de pagamento (um código do tipo 13bbGCsjo5RrByDdQovxLwhquzDyTbHG7Q) que você envia ao seu pagador para que ele possa efetuar a transação.

Simples assim.

Agora, realmente existe o processo de mineração de BitCoin como mencionado no artigo do Izzy, mas dizer que “você baixa o software oficial da parada e a roda no seu computador. Dependendo da potência do mesmo [...] você vai ganhar algumas frações de bitcoins após rodar o aplicativo por algumas horas” é tão preciso quanto dizer “existe um metal que vale muito dinheiro chamado ouro e tem ele enterrado. Funciona assim, você pega uma picareta e cavuca a terra, e algumas horas depois você acha alguns microgramas de ouro”.

Ainda tem um erro menor nessa afirmação, que diz que o software tem que ser o “oficial”, decorrente da mentalidade de que o BitCoin é um esquema fraudulento controlado por algum grupo restrito de pessoas. O processo de mineração de BitCoin foi criado de modo a ser matematicamente garantido de ser difícil, e portanto dar valor à moeda (lei econômica: quanto mais raro, mais caro). O processo utiliza um algoritmo padrão para este propósito, o SHA-256, projetado pela NSA. Por ser um algoritmo muito comum e conhecido (eu o aprendi pela Wikipédia), é relativamente fácil escrever um minerador, e existem dezenas deles, com zilhões de funcionalidades e propósitos específicos. Se você for se aventurar a minerar, o último que você vai querer é o “oficial” (o primeiro minerador feito; chamá-lo de lento é bondade, ele é completamente inútil na economia atual do BitCoin).

O processo de minerar BitCoin é oneroso por causa do hardware necessário, barulho e calor gerados, energia consumida (e poluição gerada, dependendo da fonte dessa energia). Acreditar que vai ganhar dinheiro fácil com isso é igual acreditar que você vai ficar rico se pegar sua picareta e ir para alguma corrida do ouro na Amazônia junto com mais zilhões de pessoas que tiveram a mesma ideia, e montam aqueles acampamentos de mineiros cheios de miséria e prostituição que as vezes passam na Globo. Minerar BitCoin não funciona assim, exige planejamento, recursos, e as contas na ponta do lápis, e isso é facilmente visível para qualquer um que não acredite em esquemas de pirâmide. Aparentemente a ira do Izzy vem do fato de isso não ser nenhuma fonte mágica de dinheiro, como ele talvez um dia quis acreditar que fosse, e agora sai atacando.

De fato, pela inexorável mão invisível do nosso amigo Adam Smith, mineração de BitCoin nunca poderá ser uma atividade mais que muito pouco rentável, por que quanto mais gente tiver minerando, mais difícil fica, atingindo um ponto de equilíbrio onde só é rentável o suficiente quando gente suficiente desiste por acreditar que não vale a pena o esforço. Certamente para mim não vale o esforço de sair numa corrida do ouro, e para muita gente não vale o de minerar BitCoin.

Como apontado no artigo, é verdade que a moeda é muito instável e tem grandes variações de preço, por isso é considerada um investimento de alto risco para especuladores (se se pode ganhar muito, se pode perder muito), mas isso é devido à sua idade e seu relativamente baixo volume de utilização.

Pera, um ex-site de Magic é o “Banco Central” dessa parada? Isso não me parece muito seguro.

O Mt.Gox não chega nem de perto a ser o “Banco Central” do BitCoin, pois a função do Banco Central é emitir e controlar artificialmente o preço da moeda, e isso não existe no BitCoin. O Mt.Gox está mais para a NASDAQ do BitCoin, pois é a maior bolsa de valores que negocia a moeda.

E sim, é insegura, volta e meia vemos sites que lidam com grandes quantidades de BitCoins são invadidos e roubados, ou então os dados são perdidos. Infelizmente isso é uma limitação do BitCoin como um conceito novo com somente 3 anos e poucos de existência: as instituições que lidam com os valores não estão acostumados com a segurança e procedimentos exigidos na atividade financeira, e não adotam procedimentos de segurança desenvolvido a duras penas ao longo dos anos pelas instituições financeiras convencionais. Essa falha não é inerente da moeda em si. A revista Forbes já apontou estes aspectos da segurança do BitCoin, e também já foi rebatido.

O mais interessante é ver o autor acusar e desconfiar das instituições que lidam com BitCoins, e principalmente explica o aspecto da “chacota” mencionada na introdução. Aparentemente, por não serem grandes e super poderosas corporações como os bancos internacionais (que já quebraram o mundo mais de uma vez) que estão por trás do BitCoin, mas sim sites simples, evoluídos de mercado de trocas de cartas de Magic, e pessoas simples e normais com os quais nos identificamos que estão lucrando com o BitCoin, o autor ataca, faz chacota e acusa de má fé e corrupção essas pessoas, quase como se tivesse inveja, e quisesse ele ter tido a ideia e lucrado com o BitCoin antes/no lugar deles.

A própria acusação de corrupção contra o sujeito Bruce Wagner (que eu nunca tinha ouvido falar, e não tem a menor importância na economia e continuada utilização do BitCoin) referencia um site dedicado a chacotas sobre o BitCoin, o ButtCoin, que a propósito, foi encerrado aparentemente por falta de ibope.

Quanto a afirmação de que o Banco Central Europeu diz que o BitCoin tem semelhanças com esquemas de pirâmide, é simplesmente falso. Segue o único trecho que a palavra “pyramid” é mencionada:

“Therefore, although the current knowledge base does not make it easy to assess whether or not the Bitcoin system actually works like a pyramid or Ponzi scheme, it can justifiably be stated that Bitcoin is a high-risk system for its users from a financial perspective, and that it could collapse if people try to get out of the system and are not able to do so because of its illiquidity.”

Preguiça de traduzir à parte, o trecho justifica o quão arriscado pode ser para uma pessoa se meter com BitCoin sem entender como ele realmente funciona (opinião de um Banco Central; claro que muita gente que já se fudeu por causa de um banco convencional poderia dizer a mesma coisa sobre eles), mas diz explicitamente que eles não tem nenhuma dado para considerar o BitCoin como um esquema de pirâmide; é quase o oposto do que o Izzy falou. Ele só levanta a possibilidade de, caso as pessoas desacreditem do BitCoin e não queiram mais comprá-lo, você não poderá mais vender o que você tem por dinheiro convencional. O mesmo risco que os investidores de ações correm caso todo mundo ache que as ações da Petrobrás não tem mais valor e param de querer comprá-la.

Mas Izzy, um broder meu que manja dessas coisas e é super politizado falou que a vantagem do bitcoin é que, ao contrário de moedas fiat, ele não desvaloriza e não inflaciona, o valor dele só sobe!

Dãã! É claro que o valor flutua, como o de qualquer ativo negociável que não seja uma bomba relógio em viés de explodir! Lembram do Avestruz Master?

O sentido real dessa frase vem do fato da moeda ser por natureza deflacionária, o que significa que, a longo prazo, se a atividade econômica em torno da moeda aumentar, seu preço só pode subir, porque não tem ninguém com poder para emitir mais BitCoins para compensar o crescimento da economia. Isso se dá por que a moeda foi planejada para ter uma taxa de produção decrescente, ou seja, a quantidade de BitCoins produzidas vai diminuir até parar de ser produzida, e só re-circular o que já existe. Isso não tem nada a ver com as flutuações locais dentro de uma bolsa de valores.

Você mencionou que é difícil mineirar bitcoins. Explique isso melhor.

Só corrobora o que eu falei sobre BitCoin não funcionar como a seção Como as bitcoins (não) funcionam? do artigo original alegar: não é pra qualquer um mineirar. Até o os primeiros hardwares dedicados à mineração de BitCoin começarem a ser entregues, que diminuiriam o consumo de energia em ordens de magnitude, o calor gerado é um efeito colateral indesejado que as pessoas tentam aproveitar.

E em quantas situações energia elétrica não é queimada para simplesmente se produzir calor? Ferro de passar, chuveiro elétrico, forno elétrico e aquecedor de ambiente em locais frios, etc. Claro que para o autor essas situações onde o calor da mineração de BitCoin é aproveitado em lugar de se queimar a mesma quantidade de energia e não produzir nada não passa de chacota. Mas considero montar essas engenhocas um hobby muito mais interessante do que, por exemplo, rebaixar carro, por luz de neon em baixo, um som gigante no porta malas e sair perturbando a paz pela cidade (só para citar um hobby geralmente reprovável).

Mas Sr. Izzy A. Nobre, se isso é uma merda, qual a real utilidade das bitcoins?

BitCoin tem sim seu grande atrativo para atividades ilícitas por ser anônimo. “Quase anonimidade” é uma afirmação meio fraca sem prova ou confirmações de casos em que pessoas são rastreadas através do BitCoin. O usuário pode ter quantas carteiras BitCoin quiser, cada uma com quantos endereços, sem relação um com o outro, quiser. E as carteiras e os endereços podem ser criados à vontade, offline no próprio computador, ninguém tem o controle sobre isso. Daí vem a afirmação que BitCoin é anônimo, porque não tem como ligar com certeza endereços — por onde passam as transações — com a identidade do dono daquele endereço. Olhando para a cadeia de blocos da rede BitCoin (tipo o livro de registro de todas as transações realizadas na moeda) você pode ver o dinheiro indo de endereço para endereço… mas não dá para saber por ali quem controla aquele endereço.

Eventualmente alguns dos seus endereços BitCoin se tornam conhecidos por alguém: se você usar seu endereço em negócios com uma pessoa, ela provavelmente terá alguma informação de contato sua que ela poderá relacionar ao seu endereço. Então ele é rastreável? Teoricamente sim, tão rastreável quanto receber uma nota de troco na padaria e tentar fazer o padeiro lembrar quem deu aquela nota para ele. Simplesmente não é uma abordagem realista, ainda mais se a quantia tiver passado por várias transações antes de levantar a suspeita.

E quanto a “essa porra” ser um “oceano de credibilidade”? Do que se duvida do BitCoin? Se for da sua robustez como moeda de troca, tem toda uma economia (ilícita) bem estabelecida e dependente do BitCoin, de modo que demanda por ele não vai faltar, garantindo sua liquidez. Se for da sua anonimidade e conveniência: bandidos usam sem medo de serem pegos. Que garantia maior você poderia querer? Eu não vejo como é possível o fato de o BitCoin ser o instrumento de negociação escolhido por criminosos cautelosos ser de alguma forma indicativo de sua fragilidade.

Quanto a negócios legítimos que aceitam BitCoin, dá uma checada nessa página: https://en.bitcoin.it/wiki/Trade. Em particular, compro jogos com BitCoins aqui: JJGames.com. Fora isso, se você for um especulador ou minerado que ganhou algum dinheiro com BitCoin, você pode simplesmente trocá-lo por outra moeda em algum dos sites de câmbio de BitCoins existentes, o único brasileiro não é lá muito ativo: Mercado Bitcoin. O tal valor “virtual” do BitCoin é tão “virtual” quanto o valor de ações da Bovespa, com a diferença que você não precisa de esperar o horário de pregão para vender — funciona direto, inclusive nos finais de semana.

E baseado na afirmação:

“bitcoins e seus entusiastas residem na mágica intersecção de

  • pessoas que não entendem o mercado financeiro,
  • pessoas que não entendem investimentos, e
  • pessoas que não entendem matemática.”

concluo que se as pessoas que fizeram e ainda fazem o BitCoin entendessem tanto de mercado financeiro, investimentos e matemática quando o Sr. Izzy A. Nobre, ele com absoluta certeza não existiria…

Para que realmente serve o software?

January 4, 2013

Dada a atenção indevida atraída pelo post “Para que serve o software?“, onde leitores casuais desavisados caíam na armadilha de ler uma coisa que não tinha nada a ver com o que procuravam, me senti na obrigação de escrever um post (anos depois) explicando realmente, em nível técnico-didático-objetivo, para que serve o software, e não aquela baboseira que era o post original.

Software é um estrangeirismo vindo do inglês que antagoniza a palavra hardware, que significa: “hard” -duro; “ware” -bem de consumo, mercadoria. O termo originalmente utilizado para designar pequenas peças de metal, adquiriu um novo sentido no século XX: designar a parte dura, material do computador. Daí, já que “hard” é duro e “soft” é mole, não custou nada para alguém cunhar a palavra software, que em contrapartida ao hardware, designa a parte lógica do computador, seus procedimentos de funcionamento, seu “conjunto de instruções” (e coloco “conjunto de intruções” entre aspas porque, apesar de as pessoas normais conseguirem entender muito bem o sentido que dou aqui a esta expressão, já posso prever eventuais leitores programadores reclamando disso e dizendo que “conjunto de instruções” é uma propriedade de arquiteturas de processadores e coisas afins; mas não é este sentido que aplico aqui).

Para entender melhor, é preciso saber que computadores são mais que simples calculadoras gigantes (embora pareça, e muitas pessoas os usem assim); têm uma característica fundamental que os diferencia de calculadoras puras: eles são programáveis (tá, tem calculadoras programáveis, mas isso também as define como computadores). Significa que um computador é uma máquina feita para seguir instruções precisas, um conjunto de passos bem definidos, orientados para algum propósito (bem, assim esperamos, mas nada impede você de programar o seu computador para fazer coisas sem propósito, ou de rodar programas despropositados nele), e essas instruções podem ser alteradas sem ter que se reconstruir a máquina. As tarefas dadas aos primeiros computadores (dado o contexto da Segunda Guerra Mundial) eram cálculos de trajetórias balísticas e decifragem das comunicações inimigas.

Mas o computador não sabia fazer isso sozinho. Como calcular a trajetória das balas de canhão, Isaac Newton já ensinou para todo mundo faz muito tempo, então coube a alguém que aprendeu com ele ensinar ao computador como fazê-lo. Esse alguém (mais provavelmente, vários alguéns) já o sabiam como fazer à mão: existe um conjunto de passos bem definidos e fórmulas já bem conhecidas para o procedimento; não é necessário nenhuma intuição ou criatividade para realizá-lo, só é preciso saber como se faz e repetir o processo. Só que fazer isso à mão é lento e passível de erro, porque pessoas se cansam e se distraem, especialmente se for um trabalho chato como esse. Daí os engenheiros programaram a sequência de passos objetivos que o computador deveria seguir para chegar ao resultado, o procedimento para realizar a tarefa, e é precisamente esse procedimento, codificado na língua do computador, que é o software.

Descifrar códigos secretos é um trabalho mais chato ainda, tem que ficar testando muitas variações e técnicas de decifragem em cima do código, até sair alguma coisa legível. Como um computador é muito mais rápido que uma pessoa, ele é bastante adequado para a tarefa, desde que ele saiba de antemão quais técnicas e em que ordem elas devem ser aplicadas ao texto. Esses técnicas, dadas em ordem bem definida, e codificadas na língua do computador, constituem o software.

Veja que estresso a importância da “ordem” do procedimento. Alguém poderia perguntar: mas e se o computador aplicasse as técnicas em ordem aleatória? Então eu responderia que daí não é um computador. Um computador é incapaz de uma ação aleatória. Nem mesmo consegue escolher uma carta de um baralho fechado. O melhor que ele consegue é chamado de “pseudoaleatório”: ele segue um processo tão esquisito, matematicamente forjado para este propósito, que simula aleatoriedade, porque a distribuição dos valores gerados por esse processo é uniforme e aparentemente imprevisível. Mas se depois de gerar um bilhão de números pseudoaleatórios, você “rebobinar” o computador para o ponto em que ele começou, ele gerará exatamente os mesmos números. É uma disciplina abrangente e complexa o estudo dos processos de geração de valores pseudoaleatórios, que se justifica por essa incapacidade dos computadores.

É claro que alguém pode desenvolver alguma engenhoca que gera eventos aleatórios e ligá-la ao computador (e isso é comummente feito nos computadores, com o hardware de geração de número aleatório), ou guardar parâmetros de eventos externos aleatórios, como as ações dos usuários humanos, e usar isso para sortear suas ações, ou qualquer ideia do tipo que com certeza alguém já pensou, mas do processo puro da computação, decorrente da execução de um software, uma ação aleatória é impossível. E isso é óbvio se considerarmos que um software é uma sequencia bem definida de passos: se é bem definida, não pode ser aleatório.

É uma questão física/filosófica se eventos realmente aleatórios existem no mundo real; se tivermos todos os parâmetros de um dado e a força com que foi lançado, podemos calcular precisamente como ele cairá. A existência, portanto, admitiria algo realmente aleatório? Certamente podemos detectar eventos aleatórios na física quântica, mas não seriam eles parte de um processo mais primordial que ainda não entendemos? Essa incerteza sobre a natureza da realidade leva à especulação mais fascinante da computação teórica: seria a realidade um software, uma simulação? Se sim, ela não é fundamentalmente diferente de nenhum simulador ou jogo de computador que jogamos, somente maior. Claro que essa ideia é refutada por aqueles que acreditam na superioridade do intelecto humano sobre o computador, eles argumentam que um computador nunca poderá ter consciência, criatividade, imaginação, etc, e portanto é fundamentalmente incapaz de reproduzir a realidade, mesmo se fosse grande o suficiente, já que obviamente há vida consciente nesta realidade que ele seria incapaz de reproduzir.

Divagações filosóficas à parte, agora que já expliquei o conceito teórico fundamental sobre o software, vamos à parte prática. Na década de 1950 o software era tão pequeno que não era nada além de um procedimento de cálculo balístico, um mero acessório do computador. Hoje em dia software vem em todos os tamanhos, e pode ser tão grande que o custo do computador é irrelevante perto do seu custo. Antigamente o software tinha que ser projetado para um computador específico, cada computador tinha seu próprio “conjunto de instruções” suporatas (agora sim, no sentido ortodoxo do termo), sua própria linguagem para montar os programas (linguagem de montagem, assembly em inglês), e embora equivalentes, eram incompatíveis (você pode expressar as mesmas idéias em português ou alemão, portanto são línguas “equivalentes” para o propósito de comunicação, mas quem só fala português não entende alemão, portanto são “incompatíveis”). O programa de um não rodava no computador do outro. A lógica era: o fabricante projetava e fazia o computador do melhor jeito que pudesse dentro dos recursos, depois os programadores se viravam para (re)escrever os programas.

Hoje o software é mais valioso que a máquina em si, dezenas de fabricantes diferentes fazem computadores compatíveis entre si, só para poderem funcionar com o software já existente. O software se tornou tão grande que os cálculos e processamentos úteis realizados pelo computador se perdem no meio de firulas gráficas, sons, animações e coisas piscando, mas tudo criado fundamentalmente do mesmo jeito: bilhões de instruções executadas por segundo para decodificar um filme 3D FullHD com som 8.1 surround, todas executadas passo a passo, bem definidas, perfeitamente ordenadas, totalmente previsíveis, e com seus efeitos cuidadosamente planejados pelos programadores e engenheiros. Cada pixel da tela precisamente identificado por suas coordenadas cartesianas X e Y têm cada um dos seus três canais de cores (vermelho, verde e azul) definidos pelo preciso processo de funcionamento do software, que instrução por instrução, diz para o computador exatamente o que fazer com aqueles dados vindo do disco de Blu-Ray para chegar naquela intensidade daquela cor daquele pixel naquela posição da tela que você observa por menos de um vigésimo de segundo enquanto o filme passa.

Nossa, isso foi dramático. Na verdade não é bem assim. Computadores modernos na verdade possuem vários processadores, que podem executar vários programas simultaneamente, ou trechos diferentes do mesmo programa, ou então até o mesmo trecho do programa, mas cada um com um pedaço diferente dos dados que precisam ser processados. As possibilidades são bem flexíveis; afinal, é o software (ou o programa) que determina como vai ser; o hardware só obedece. Na verdade verdadeira, dentro da caixa que chamamos computador, podem ter ainda mais processadores, com propósitos específicos que rodam software diferente dos o processadores principais, que é o caso das placas de vídeo, que têm processadores projetados para simular efeitos gráficos tridimensionais.

Todo esse circo do computador moderno é coordenado pelo software mãe: o sistema operacional. Ele é primeiro software que liga e último que morre (bem, quase). Ele determina como todos os outros programas serão executados, em que ordem eles serão executados, como interagirão entre si e com o usuário e como eles se alternarão entre os recursos do computador rápido o suficiente para que você ache realmente que todos os programas que você tem aberto funcionam simultaneamente (não fosse assim, um Quad-Core não poderia rodar mais que quatro programas ao mesmo tempo). Ele também controla todo o hardware, sabe do que o hardware precisa, quando precisa e sabe se comunicar com ele (os famosos drivers), traduzindo de/para os outros programas o funcionamento do mouse, do teclado, do vídeo, do som, da rede, etc. Tudo isso com seu descrito passo a passo, instrução por instrução, que é pacientemente lida, decodificada e executada pelo processador, bilhões de vezes por segundo…

Um Conto de Seriemas

June 7, 2012

Existem alguns cálculos, publicados já faz algum tempo, em revistas nada especializadas, sobre a poluição gerada na utilização dos eletrodomésticos das residências, e o impacto desta poluição no aquecimento global. Esta informação pode causar uma certa estranheza nos leitores brasileiros mais instruídos, principalmente aqueles que não costumam utilizar eletrodomésticos movidos a motor de combustão interna, mas sim, como o próprio nome indica, eletrodomésticos movidos à eletricidade. Não por que as pilhas descartadas não sejam um problema ambiental. Não, elas são um problema ambiental sim, embora mais relacionado com a contaminação do solo com metais pesados do que com o efeito estufa; entretanto, mesmo sendo uma fonte de eletricidade bastante utilizada por aqui, os nossos eletrodomésticos não costumam ser movidos à pilha, mas sim a energia elétrica advinda da tomada.

Esta, por sua vez, vem do transformador localizado em um poste a, no máximo, algumas dezenas de metros da residência, que é alimentado pela eletricidade que vem de algum processo e infraestrutura que eu não entendo exatamente como funciona, mas que no final das contas (como ensinam nas escolas) vem de uma usina hidrelétrica.

E eis a fonte da estranheza da informação de que eletrodomésticos causam efeito estufa para os brasileiros. Claro que o lapso de estranheza é momentâneo. A pessoa rapidamente ligará o conceito de eletrodoméstico, tomada e hidrelétrica com a informação conflitante, que é poluição e efeito estufa. Todo mundo sabe que carros com seus motores fedorentos causam efeitos estufa. Vacas com seus puns fedorentos causam efeito estufa. Mas nunca ninguém ouve falar que eletrodomésticos ou hidrelétricas causam efeito estufa. A esta altura, aqueles com um pouquinho mais de imaginação logo deduziriam que estes dados, claro, não se tratam do Brasil, mas sim da sede do nosso império, os EUA. E em meio segundo após saber do estudo sobre o efeito dos eletrodomésticos no aquecimento global, quando fazer todas as ligações sinápticas, o brasileiro sorri, e se orgulha de ter a energia mais limpa do mundo, a despeito, é claro, de toda destruição ambiental necessária para se construir uma hidrelétrica, e da briga com os índios e ribeirinhos desalojados, e os macacos raivosos no topo das árvores sendo engolidas pelas águas.

Ah, mais que bela vista e fonte de alegria é uma hidrelétrica construída. Bem, nem sempre, mas frequentemente, na geografia pouco acidentada deste pais, as hidrelétricas precisam de barragens que formam gigantescas represas (fonte de toda a destruição ambiental), para funcionarem com a potência necessária para trazer a energia e o progresso a esta grande nação. Tirar do escuro aquelas famílias rurais tão sofridas que vemos nas propagandas da companhia de energia elétrica ou do próprio governo do estado de Minas Gerais, que também propagandeia a qualidade da educação durante a pior crise do ensino público que se tem na memória recente.

Mas muito mais do que tirar do escuro, as hidrelétricas têm outro papel social: a vista. Nas literaturas, desenhos e filmes importados da sede do Império, é muito frequente a ocorrência de lagos e lagoas. É onde os pais levam os filhos varões, quando já estão crescidinhos, para pescar, enquanto deixam as mães e irmãs em casa, pois os laços entre pais e filhos aparentemente só valem a pena ser estreitados com atividades bucólicas quando dentro do mesmo gênero sexual. Não temos por aqui a mesma ocorrência de lagos e lagoas que aparentemente existe na gringolândia, mas considerando que agora só recorremos à luz de vela em situações excepcionais, existe um enorme número de hidrelétricas que dão conta do suprimento de luz, e portanto, existe um grande número de represas.

Lindas represas fluviais, enterradas no meio de florestas tropicais, fazendas de soja, gado cagão, agrotóxicos, e todas essas coisinhas necessárias a uma boa economia essencialmente agrária (o que é uma grande vantagem em meio a uma economia global em crise, pois se come soja e gado, que é muito menos indigesto do que papeis, ouro, petróleo, títulos bancários podres, armas, guerra e essas coisas com que lidam as economias mais avançadas). A estas maravilhosas e pastoris represas fogem com suas putas e piriguetes os trabalhadores do interior nos finais de semana. Passam o tempo todo pescando, enchendo os cornos de cachaça e ouvindo musica ruim. Alguns até levam toda a família, para então voltarem bêbados para casa no domingo a noite e causarem acidentes nas estradas.

E em meio ao cenário campestre das margem das represas, analogamente ao que acontece aos lagos e lagoas (eu acho, sei lá, mal sei o que é um lago), se desenvolvem as atividade humanas que visam o lazer, a paz, a tranquilidade, a música ruim e a cachaça. Mais do que na margem, muitos até adentram à própria represa, construindo barracos de madeira que flutuam sobre galões de agrotóxico vazio, formando a vista mais horrível que alguém poderia esperar ao ir para lá. As várias casinhas coloridas, desbotadas e horrorosas flutuando em meio às manchas de dejetos gordurosos despejados por elas mesmas, já que elas possuem cozinha e banheiro, e o esgoto é ali mesmo. Ah se estivesse ali o sujeito que teve a ideia de tornar famosas as favelas brasileiras no exterior!

Desejosos de aliviar o estresse do trabalho burocrático no escritório de umas das incontáveis cidades do interior do Brasil, localizada no seio da savana sul-americana, estes dois amigos pegam a estrada no final de semana rumo à represa mais próxima (que nem é muito longe), onde poderão pescar e ser picados por mosquitos. Chama-lo-emos de motorista e passageiro. A rodovia só os leva a quatro quintos da distância total da cidade à represa, e o resto do trajeto deve ser feito em meio às poeirentas estradas (lamacentas, nos dias de chuva) que ligam as fazendas ao resto do mundo.

A paisagem nessas estradas é intermitente, as vezes são vistos pastos para criação de bovinos, as vezes campos com soja ou o que quer que seja que esteja mais valorizado na bolsa de valores (que eu tenho a remota esperança que reflita o que as pessoas realmente queiram consumir, e nem tanto o que os especuladores profissionais acham que as pessoas deveriam querer consumir), e também, um pouco mais escasso, blocos isolados de matas e vegetação nativa, que são requeridos por lei. Nem todos os fazendeiros obedecem a esta lei, mas os que o fazem, tratam de construir suas reservas de mata nativa o mais longe possível da da fazenda adjacente, de modo que as áreas de floresta natural são intercaladas com as plantações e pastos, e a fauna se viu obrigada a construir um caro e complexo sistema de logística e transporte conectando os vários pequenos trechos de flora, o que gera uma grande insatisfação às onças pardas, que frequentemente precisar pegar o metrô inter-reservas para que possam encontrar suas presas.

Numa clara desobediência às regras da Associação da Fauna Brasileira, a entidade responsável pelos metrôs inter-florestais, um casal de seriemas caminhava tranquilamente por uma estrada de feitura e uso humano. Um absurdo, pois além de ser extremamente perigoso para animais silvestres utilizarem as instalações humanas, onde correm o risco de serem extintos — ou pior, domesticados — é uma prática extremamente injusta por parte das presas, pois se evadem dos meios oficiais onde os seus predadores naturais esperariam encontrá-las. Criaturas perversas e subversivas são as seriemas: com um claro descaso pelas regras da AFB, e de tanto usarem os campos e instalações humanas, são muito mais frequentemente avistadas pelas pessoas do que qualquer outro animal silvestre terrestre destas bandas. Isto lhes deu o temível rótulo de “Menos Preocupante” na lista das espécies ameaçadas de extinção, o que significa que a qualquer momento sua caça pode ser legalizada, como já fizeram com o jacaré e outras espécies superabundantes ao longo da história.

Pouco custa para algum nerd lunático fascinado em anime e quadrinhos comprar um arco e um punhado de flechas e começar a treinar tiro ao alvo no meio do mato. Logo ele leva seu arco para as convenções locais de animes e pode ser que a moda pega e mais um monte de outros nerds lunáticos comprem arcos também. E onde descarregar todo o instinto assassino acumulado em todos estes anos de RPG e vídeo games violentos? Nas seriemas que ficam dando bobeira no mato, é claro. E se os ruralistas no congresso estão conseguindo obliterar o código florestal brasileiro, dando respaldo legal para piorarem a situação das florestas — que já nem é tão boa — o que custa para os lunáticos (que deixaram de ser nerds para serem bárbaros selvagens) reivindicarem seus direitos de destruir o meio ambiente em prol do interesse próprio e conseguirem a legalização da caça com arco e flecha das seriemas? É claro que isto é uma situação hipotética — alguns diriam até absurda (outros nem tanto, depois de terem assistido à aprovação do novo Código Florestal Brasileiro) — mas ilustra o perigo real que correm as seriemas ao desobedecerem as regras da AFB e se exporem para os humanos.

Precisamente a mesma estrada que a dupla de amigos tomara para alcançar a represa é a estrada que o casal subversivo de seriemas escolheu para tomar sol. Em uma margem da estrada havia uma plantação, e na outra a borda de um dos blocos isolados de mata do serrado. O momento em que uma criatura de mais de uma tonelada se aproxima a 50 km/h, vestindo uma armadura metálica reluzente, é o momento em que se esvai de qualquer seriema o orgulho e a valentia que as faziam enfrentar o sistema, e elas se põem a correr desesperadamente. O motorista avista as seriemas na estrada, diminui a velocidade, e maldosamente se diverte ao ver seu terror ao fugirem da camionete. Ele sabia, que apesar de serem aves, elas são animais terrestres. Na verdade, ele nem sabia que elas podiam voar. Talvez, nem mesmo as próprias seriemas saibam que conseguem voar até que a situação aperte muito. Muita gente nem consideraria aquilo um voo de verdade, já que parece mais um pulo alto com farfalhar de asas, semelhante ao voo das galinhas, que muita gente também não considera um voo de verdade. Para estes, voar significa que você deve decolar, ter no ar controle e autonomia o suficiente para dar a volta na torre Eiffel (se você estiver em Paris) e pousar em segurança. Nem o pulo desajeitado das galinhas e seriemas, nem o arremessar de um planador no ar com um estilingue se encaixam nessa definição de voo.

Para surpresa do passageiro e satisfação do motorista, as seriemas fugiram do carro pela estrada, no sentido que a camionete ia, de modo que a perseguição ao casal durou algumas dezenas de metros, até que uma das aves, numa manobra ousada e mostra de total deslealdade com a companheira, se enfia no meio da plantação enquanto a outra continua fugindo do carro pela estrada. O motorista começou ficar intrigado, e começou a se perguntar por que a que sobrou também não fugia para a plantação, como a outra havia feito.

Fontes dizem que uma seriema pode sustentar a fuga de um carro em uma velocidade de até 25 quilômetros por hora. Pois esqueceram de avisar a esta seriema que este era seu limite, porque por um bom tempo ela sustentou uma fuga a quase 40 quilômetros por hora. O motorista, não sabendo que ela podia voar, vendo incapacidade do bicho de sair da estrada, e não querendo atropelá-lo, começou a ficar irritado. Perguntava em voz alta ao passageiro:

– Por que ela não sai da estrada?

– Eu sei lá! — respondia ele.

Então ele resolveu apelar para a manobra que os motoristas costumam utilizar quando o veículo da frente é uma lesma e eles estão com pressa: ultrapassagem. Ele desviou a camionete para a esquerda (cabiam ela e a seriema lado a lado na estrada, visto que a seriema não é muito larga para um automóvel) e começou a acelerar. Aí a seriema, que até o momento talvez não tenha ficado mais do que muito assustada, viu a coisa ficar feia e se desesperou. A criatura encouraçada estava ganhando terreno e se movimentando lateralmente, possivelmente em alguma manobra esperta de predador que se antecipa à trajetória da presa. A seriema não estava ainda desesperada o suficiente para voar, então fez a coisa mais inteligente que uma presa terrestre poderia fazer, e correu para o lado contrário ao escolhido pelo predador, finalmente entrando na plantação, a exemplo da companheira.

Naquela tarde, a seriema se gabou de como ela distraiu o predador para que a outra pudesse fugir, e então sozinha subjugou seu perseguidor, usando de sua astúcia e velocidade. Já na beira da represa, o motorista logo esqueceu o incidente, mas o passageiro que tinha um pouquinho mais de imaginação, e matutou o caso por um tempo, perguntou:

– Descobriu por que seriema não saía da estrada?

– Não. Por que?

– A seriema achava que ela era nossa presa, ela não imaginava que a gente estava simplesmente seguindo a estrada. Quando a primeira entrou na plantação, ela achou que tinha cinquenta por cento de chance de nós a seguirmos, mas que por acaso escolhemos a outra. Daí, não havia mais sentido para a outra desviar o seu caminho da linha reta, pois achava que para onde ela fosse, ela seria seguida por nós, inclusive dentro da plantação. Só mudou de atitude quando você jogou o carro para o lado, quando virar para o outro lado passou a ser uma rota de fuga melhor do que a linha reta. Ela foi vítima do próprio ego, achando que era importante o suficiente para ser perseguida pelo carro aonde quer que ela fosse.

Diablo 3 Real Damage Per Second Calculator

May 19, 2012

I have created an application that calculates the (real) DPS of weapons in Diablo III, whether single or dual wielding. Quoting the description:

Choose your weapons wisely and know how much damage you truly deliver in Diablo 3!

Good old days when bigger was better is gone! In Blizzard™’s Diablo III™, except for the most simple and non-magical weapons, the DPS (Damage per Second) reported can be misleading, because it does not take into consideration the extra magical damage an weapon may deliver. If not enough, things really gets wild when dual wielding, when you can deliver less damage than with a single weapon if you don’t carefully consider the specs of both weapons.
Tired of switching from desktop to game in order to use PC calculator to get the right DPS? Tired of building all the complicated formulas in your cell phone calculator, while your NPC companion complains you are wasting his time, just to know if using two axes is better than a single dagger? Have you never bothered knowing your DPS because it was too complicated?
If so, this application is for you! You will still need to type the values into your cell phone, but from the bare values it will magically deliver the true DPS you waste upon your foes!
You will have to input: base damage, extra magical damage and speed, for a single weapon or for two weapons, and the calculator will display your true DPS with that choice of weapons.
Please notice that this application was not made by Blizzard, and the formulas used within were devised from the gameplay itself.

Buy it from here: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.fractalgames

The source code is available here: https://www.gitorious.org/d3dpscalc. Please don’t compile it yourself then submit it to Google Play for free, because I don’t know how to sue you if you do…

Closed Timelike Curve

May 4, 2011


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