Archive for July, 2010

A Pirataria, o Povo e a Lei

July 19, 2010

Um evento recente ocorrido em São Paulo, noticiado na Folha em O Globo me motivou a pensar (ainda mais) no assunto. Até fiz descobertas decepcionantes sobre a lei brasileira.

Poderia resumir a notícia em: foram presos os donos de um site, por onde praticavam atividades ilegais. Responderão por um crime previsto no Código Penal Brasileiro e por formação de quadrilha, já que várias pessoas estavam envolvidas na feitura e manutenção do site. Se o crime fosse pedofilia, as pessoas falariam: “bom trabalho, polícia”. Entretanto, os comentários feitos pelos leitores dos dois jornais estão mais para “vão caçar bandidos” e “isso não é crime”, dentre outras coisas do tipo.

O crime em questão (fiz questão de olhar a lei apontada pela Folha, que, diga-se de passagem, tem uma reportagem muito mais completa, bem escrita, e menos tendenciosa do que a feita pelo O Globo), artigo 184 do Código Penal, se constitui basicamente da violação do direito autoral com a finalidade do lucro. Ao contrário do querem fazer você acreditar, o código diz explicitamente que ter uma cópia para uso pessoal não é crime.

A reportagem na Folha salienta que os donos do site ganhavam dinheiro através de propaganda e de doações, o que poderia ser considerado “lucro” para enquadrá-los no crime mencionado no Código Penal. Já a reportagem do Globo diz: “Um engenheiro de 32 anos […] foi preso […] pos suspeita de promover a pirataria na internet”. Desconsiderando a troca do “r” pelo “s” na palavra “por”, erro detectável por qualquer corretor ortográfico, a reportagem também peca por definir o crime como “promover a pirataria na internet”. O termo “pirataria” diz respeito a tantas coisas diferentes que a sentença pode significar desde incentivar pessoas a abordarem, de barco, outras embarcações para pilhar e matar (pirataria no sentido original), quanto a ensinar a fabricar cigarros com barbante e fezes de morcego e vender como se fosse Hollywood (cigarro pirata).

Claro que o contexto tornava a sentença bem óbvia e provavelmente todo mundo que leu entendeu como o redator queria que fosse entendida, já que foi escrita exatamente da forma como a indústria fonográfica interpreta e divulga a Lei de Direito Autoral: cópia de filmes e músicas pela internet é pirataria, uma prática extremamente vil e maligna, que deixa artistas, com seus cachês milionários, à beira da fome e da miséria.

Foi uma surpresa para mim saber que violação de direito autoral, mesmo que com o intuito de lucro, é uma ofensa criminal, prevista no Código Penal. Não é trabalho digno, que mereça remuneração, pegar um CD original, gravar dezenas de cópias, imprimir encartes, capas e montar caixinhas, e ir para a rua vender? É um trabalho cujo a renda sustenta muito mais famílias pelo Brasil do que a renda obtida com o preço obsceno dos CD’s originais. Claro que, enquanto alguns querem que as pessoas se sintam culpado por copiar filmes e música, as reações nos comentários das reportagens mostram que a maioria não pensa assim, e que eu não estou sozinho nas minhas convicções. O simples fato de ter gente tentando convencer que pirataria realmente é um crime horrível (e isso eu só achei dentre os comentários de O Globo), só mostra que as pessoas precisam ser convencidas disso, e que a lei não é natural, discordando da consciência coletiva. Se bem me lembro das aulas de filosofia no colégio, a lei deveria ser a representação escrita da consciência coletiva.

Você está satisfeito com a atual realidade da lei no tocante a direito autoral? Achou ruim essas pessoas da reportagem terem sido presas? Achou ruim ter um site a menos na internet onde se pode baixar filmes e seriados? Pois se você faz parte da maioria da população, e responde a estas perguntas do mesmo jeito que eu, deveria considerar que quem está errado nessa história é a lei, e não a população. Deveria pensar que não é a prática das pessoas com relação a lei que precisa mudar, e sim é a lei que deveria mudar seguindo a prática das pessoas.

Existem alternativas propostas com relação à lei de direito autoral atual. Incluem limitar o direito autoral a 15 anos a partir da data de publicação, não proteger materiais que não foram publicados no país ou que não possuem um meio oficial de se obter. Sejam quais forem as mudanças, o mais importante no momento é convencer as pessoas e o congresso de que estas mudanças são necessárias e urgentes. A situação está instável, de um modo que a coisa é ilegal mas praticável. Situações assim não tendem a perdurar (essa prisão é um sinal disso). Que seja essa lei antiga, de antes da internet, que se adeque a nós, e não nós a ela. Eu não quero falar um dia para o meu filho: “Na minha época, podia se conseguir praticamente qualquer filme ou música existente de graça pela internet, na maioria das vezes, de um dia para o outro. Hoje já não se consegue mais fazer isso… e eu não fiz nada para impedir que nos tirassem essa liberdade.”

Coulant de Chocolate

July 13, 2010

Ingredientes

  • 4 ovos
  • 75g de manteiga
  • 75g de açúcar
  • 75g de farinha
  • 115g de chocolate derretível de fondant
  • um pouco de cacau em pó (opcional)

Procedimento

  1. Bata os ovos com o açúcar em um bowl.
  2. Adicione o chocolate, tendo-o derretido no (?)micro-ondas (disseram que é melhor em banho-maria, veja apêndice).
  3. Adicione a manteiga, também derretida (micro-ondas de novo?).
  4. Bata até ficar homogêneo.
  5. Adicione a farinha com ajuda de um troço que lembra um ventilador que pica a farinha enquanto ela cai.
  6. Misture até ficar homogêneo.
  7. Lubrifique a forma com manteiga, cobrindo toda a superfície. A forma é de alumínio, e pode, a longo prazo, causar Mal de Alzheimer. Será que interfere? Talvez forma de silicone deva ser usada…
  8. Jogue cacau em pó (tô começando a achar que é chocolate em pó) na forma e vai girando até ficar tudo grudado de chocolate por dentro. Se não tiver cacau em pó, serve farinha.
  9. Chacoalhe para tirar o excesso (em outro recipiente, não no chão).
  10. Encha as formas com a gosma. Essa quantidade dá para 4 coulants.
  11. Dá uns tapas (por baixo) para assentar a mistura na forma.
  12. Deixa 12 horas na geladeira ou 2 horas no congelador (é, parece que vai demorar).
  13. Se os coulants estiverem no congelador, deixe-os aquecer em temperatura ambiente por 10 minutos.
  14. Preaqueça o forno em 125°C.
  15. Asse por 10 minutos. Agora a parte difícil: é totalmente empírico e pode não dar certo. Teste um, se desmontar ao ser desenformado, deveria ter assado por mais tempo. Se não sair chocolate líquido por dentro, deveria ter assado por menos tempo. Talvez seja útil fazer uma planilha com os dados do seu forno e as temperaturas ambientes usuais do seu clima, para registrar o tempo de preaquecimento até a temperatura ideal e o tempo certo de assamento para não desmanchar e ficar líquido por dentro. Essa planilha provavelmente só vai servir para o seu forno na sua altitude com a mesma quantidade de coulants, e é bom não confiar no mesmo dado para épocas do ano diferentes.
  16. Enfie uma faca por toda a borda da forma para desgrudar, e impedir que desmanche ao desenformar.
  17. Vire a forma em um prato e bata com uma colher na forma até desgrudar o coulant (não o destrua com os seus golpes).
  18. Pode comer. Não esqueça os outros no forno. Geralmente acompanhado de frutas ou sorvete.

Traduzido do espaninglish de http://www.youtube.com/watch?v=WTRgA5KwIVY.

Apêndice

Banho-maria é uma técnica inventada pela alquimista Maria, a Judia, que viveu em Alexandria, no Egito, por volta do século I. Consiste em encher uma panela de água, pôr no fogo (que vai levar água à ebulição), e colocar outra panela menor dentro, contendo chocolate (ou o que quer que seja que for cozinhado em banho-maria), o processo garante que a panela interna nunca será aquecida além de 100°C (temperatura de ebulição da água), não tendo seu conteúdo queimado.

ABNT — Desrespeitando os Próprios Padrões

July 5, 2010

Segundo o FAQ no catálogo da ABNT, o único jeito de se conseguir visualizar a versão eletrônica de uma norma adquirida pelo site, é com a instalação de um visualizador que só funciona no Internet Explorer, Windows, .NET Framework. Não tem nada menos padronizado e mais dependente de plataforma do que isso. A mistura de hipocrisia com a ironia da situação me fez enviar-lhes a seguinte mensagem de indignação:

Vocês são o órgão que publicam esta norma:
http://www.abntcatalogo.com.br/norma.aspx?ID=1549

Vocês têm, a princípio, a finalidade de padronizar tudo, inclusive documentos eletrônicos. Vocês deveriam ser os primeiros a reconhecerem a importância de se respeitar os padrões de modo a garantir a neutralidade entre fornecedores de software e hardware e de garantir a compatibilidade futura dos documentos eletrônicos. Enfim, vocês deveriam entender todos os benefícios de se respeitar e seguir os padrões.

Mas em vez disso, ao distribuir seus próprios documentos em formato eletrônico, o fazem em um formato estranho, que exige software específico (Windows, Internet Explorer, .NET) de uma empresa específica (Microsoft), que só funcionam em computadores específicos (Intel x86 / PCs), desrespeitando aos próprios padrões que vocês mesmos publicam (OpenDocument, Portable Document Format, Office Open XML). Como ter credibilidade nessa organização?

Eu estou profundamente desapontado com sua política de distribuição de documentos eletrônicos, que impedem a mim, que não possuo Windows, de ter acesso a eles.

Ajudaria um pouco de divulgação e pressão por parte de mais gente. Qualquer um que toma partido da minha indignação faria um grande favor ao progresso do conhecimento no Brasil se também reclamasse por este formulário.

Tempestade

July 2, 2010

Cai bem forte a tempestade
É imponente, é imparável
E desconta sobre a terra
A sua ira inesgotável

Recebe a terra a tormenta
Não reclama compactuar
Pois merece a tempestade
Que aos pecados vem lavar

Fustiga o mundo a tormenta
Sopra em nós seu vento gélido
Que congela a nossa pele
E amortece em nós a alma

Brilha ao céu mortais relâmpagos
Dos trovões, ouça o clamor
Nos despertam, muito intensos
O fascínio e o terror

Tempestade carregada
De nós todos, nossas mágoas
Que da terra, vem pra terra
Por nós todos, vem chorar

Veio-me a inspiração em uma tempestade que eu e mais dois amigos enfrentamos a pé, não por falta de opção, mas por ser interessante. Uma semana depois, no dia 26 de setembro, foi escrito. Essa não é a versão original, foi revisada mais de uma vez por conta de construções com semântica duvidosa e métrica.

A métrica aqui foi complicada, pois vários versos caem em casos que a regra padrão de contagem de sílabas poéticas deixa a desejar: vogais juntas em palavras diferentes viram uma sílaba poética só. Estes versos parecem na minha cabeça ter 7, mas por essa regra alguns têm 6. Não satisfeito, e não tendo mais que a Internet para me auxiliar, encontrei esta técnica de contagem de sílabas que me pareceu mais certa que a “simplificada”, e que se aplicada aqui com alguma liberdade, classifica todos os versos como redondilho maior. Ainda não sei qual a técnica correta e apreciaria o comentários de um perito no assunto.

De como o marujo, usando um clipe de papel e uma escova de dentes, abriu caminho pelo buxo da morsa para a sua liberdade

July 1, 2010

Morsa saciada
Põe-se a nadar
Em direção a pedra
Que é o seu lar

Cruel e vil morsa
Merecido fim teve
Por sua pança gulosa
Banha não mais susteve

Densidade aumentou-se
E de pronto afundou-se
De tanto peso fazia
A miserável presa comida

Morsa má e inexperiente
Nunca havia comido gente
Por conseguinte não sente
A chegada do fim iminente

Marujo apertado no buxo
Imundo, fedido, pançudo
Pelo punho marcado no remo
Certeiro soco gemendo

Infeliz, pois, foi seu golpe
Na dura morsa, inócuo
Pôs-se a pensar a galope
E não perder o foco

Pegou então seu clip
Fiel companheiro infalível
De longas aventuras, temível
E com ele fez um “pik”

Furado estômago inchado
Pela tensão, fez-se um rasgo
À liberdade, viu o marinheiro
Fujir, tentou-o ligeiro

Pois veja então, que tragédia
O rasgo não lho cabia
Passava sòmente a mão
Que muito esforço fazia

Lembrou-se então, marinheiro
Que de casa nunca saía
Sem sua escova de dentes
Que muita falta o fazia

Funçõu, então, em seus trapos
Pegando senão que devia
A sua escova de dentes
Que muito lhe serviria

Deu-se que era Newton
De alavanca, se lembraria
E usando a escova de dentes
O buxo da morsa, abriria

Continuação de De como a morsa comeu o remador. Foi escrita logo em seguida, e valem as mesmas considerações.