Um Conto de Seriemas

Existem alguns cálculos, publicados já faz algum tempo, em revistas nada especializadas, sobre a poluição gerada na utilização dos eletrodomésticos das residências, e o impacto desta poluição no aquecimento global. Esta informação pode causar uma certa estranheza nos leitores brasileiros mais instruídos, principalmente aqueles que não costumam utilizar eletrodomésticos movidos a motor de combustão interna, mas sim, como o próprio nome indica, eletrodomésticos movidos à eletricidade. Não por que as pilhas descartadas não sejam um problema ambiental. Não, elas são um problema ambiental sim, embora mais relacionado com a contaminação do solo com metais pesados do que com o efeito estufa; entretanto, mesmo sendo uma fonte de eletricidade bastante utilizada por aqui, os nossos eletrodomésticos não costumam ser movidos à pilha, mas sim a energia elétrica advinda da tomada.

Esta, por sua vez, vem do transformador localizado em um poste a, no máximo, algumas dezenas de metros da residência, que é alimentado pela eletricidade que vem de algum processo e infraestrutura que eu não entendo exatamente como funciona, mas que no final das contas (como ensinam nas escolas) vem de uma usina hidrelétrica.

E eis a fonte da estranheza da informação de que eletrodomésticos causam efeito estufa para os brasileiros. Claro que o lapso de estranheza é momentâneo. A pessoa rapidamente ligará o conceito de eletrodoméstico, tomada e hidrelétrica com a informação conflitante, que é poluição e efeito estufa. Todo mundo sabe que carros com seus motores fedorentos causam efeitos estufa. Vacas com seus puns fedorentos causam efeito estufa. Mas nunca ninguém ouve falar que eletrodomésticos ou hidrelétricas causam efeito estufa. A esta altura, aqueles com um pouquinho mais de imaginação logo deduziriam que estes dados, claro, não se tratam do Brasil, mas sim da sede do nosso império, os EUA. E em meio segundo após saber do estudo sobre o efeito dos eletrodomésticos no aquecimento global, quando fazer todas as ligações sinápticas, o brasileiro sorri, e se orgulha de ter a energia mais limpa do mundo, a despeito, é claro, de toda destruição ambiental necessária para se construir uma hidrelétrica, e da briga com os índios e ribeirinhos desalojados, e os macacos raivosos no topo das árvores sendo engolidas pelas águas.

Ah, mais que bela vista e fonte de alegria é uma hidrelétrica construída. Bem, nem sempre, mas frequentemente, na geografia pouco acidentada deste pais, as hidrelétricas precisam de barragens que formam gigantescas represas (fonte de toda a destruição ambiental), para funcionarem com a potência necessária para trazer a energia e o progresso a esta grande nação. Tirar do escuro aquelas famílias rurais tão sofridas que vemos nas propagandas da companhia de energia elétrica ou do próprio governo do estado de Minas Gerais, que também propagandeia a qualidade da educação durante a pior crise do ensino público que se tem na memória recente.

Mas muito mais do que tirar do escuro, as hidrelétricas têm outro papel social: a vista. Nas literaturas, desenhos e filmes importados da sede do Império, é muito frequente a ocorrência de lagos e lagoas. É onde os pais levam os filhos varões, quando já estão crescidinhos, para pescar, enquanto deixam as mães e irmãs em casa, pois os laços entre pais e filhos aparentemente só valem a pena ser estreitados com atividades bucólicas quando dentro do mesmo gênero sexual. Não temos por aqui a mesma ocorrência de lagos e lagoas que aparentemente existe na gringolândia, mas considerando que agora só recorremos à luz de vela em situações excepcionais, existe um enorme número de hidrelétricas que dão conta do suprimento de luz, e portanto, existe um grande número de represas.

Lindas represas fluviais, enterradas no meio de florestas tropicais, fazendas de soja, gado cagão, agrotóxicos, e todas essas coisinhas necessárias a uma boa economia essencialmente agrária (o que é uma grande vantagem em meio a uma economia global em crise, pois se come soja e gado, que é muito menos indigesto do que papeis, ouro, petróleo, títulos bancários podres, armas, guerra e essas coisas com que lidam as economias mais avançadas). A estas maravilhosas e pastoris represas fogem com suas putas e piriguetes os trabalhadores do interior nos finais de semana. Passam o tempo todo pescando, enchendo os cornos de cachaça e ouvindo musica ruim. Alguns até levam toda a família, para então voltarem bêbados para casa no domingo a noite e causarem acidentes nas estradas.

E em meio ao cenário campestre das margem das represas, analogamente ao que acontece aos lagos e lagoas (eu acho, sei lá, mal sei o que é um lago), se desenvolvem as atividade humanas que visam o lazer, a paz, a tranquilidade, a música ruim e a cachaça. Mais do que na margem, muitos até adentram à própria represa, construindo barracos de madeira que flutuam sobre galões de agrotóxico vazio, formando a vista mais horrível que alguém poderia esperar ao ir para lá. As várias casinhas coloridas, desbotadas e horrorosas flutuando em meio às manchas de dejetos gordurosos despejados por elas mesmas, já que elas possuem cozinha e banheiro, e o esgoto é ali mesmo. Ah se estivesse ali o sujeito que teve a ideia de tornar famosas as favelas brasileiras no exterior!

Desejosos de aliviar o estresse do trabalho burocrático no escritório de umas das incontáveis cidades do interior do Brasil, localizada no seio da savana sul-americana, estes dois amigos pegam a estrada no final de semana rumo à represa mais próxima (que nem é muito longe), onde poderão pescar e ser picados por mosquitos. Chama-lo-emos de motorista e passageiro. A rodovia só os leva a quatro quintos da distância total da cidade à represa, e o resto do trajeto deve ser feito em meio às poeirentas estradas (lamacentas, nos dias de chuva) que ligam as fazendas ao resto do mundo.

A paisagem nessas estradas é intermitente, as vezes são vistos pastos para criação de bovinos, as vezes campos com soja ou o que quer que seja que esteja mais valorizado na bolsa de valores (que eu tenho a remota esperança que reflita o que as pessoas realmente queiram consumir, e nem tanto o que os especuladores profissionais acham que as pessoas deveriam querer consumir), e também, um pouco mais escasso, blocos isolados de matas e vegetação nativa, que são requeridos por lei. Nem todos os fazendeiros obedecem a esta lei, mas os que o fazem, tratam de construir suas reservas de mata nativa o mais longe possível da da fazenda adjacente, de modo que as áreas de floresta natural são intercaladas com as plantações e pastos, e a fauna se viu obrigada a construir um caro e complexo sistema de logística e transporte conectando os vários pequenos trechos de flora, o que gera uma grande insatisfação às onças pardas, que frequentemente precisar pegar o metrô inter-reservas para que possam encontrar suas presas.

Numa clara desobediência às regras da Associação da Fauna Brasileira, a entidade responsável pelos metrôs inter-florestais, um casal de seriemas caminhava tranquilamente por uma estrada de feitura e uso humano. Um absurdo, pois além de ser extremamente perigoso para animais silvestres utilizarem as instalações humanas, onde correm o risco de serem extintos — ou pior, domesticados — é uma prática extremamente injusta por parte das presas, pois se evadem dos meios oficiais onde os seus predadores naturais esperariam encontrá-las. Criaturas perversas e subversivas são as seriemas: com um claro descaso pelas regras da AFB, e de tanto usarem os campos e instalações humanas, são muito mais frequentemente avistadas pelas pessoas do que qualquer outro animal silvestre terrestre destas bandas. Isto lhes deu o temível rótulo de “Menos Preocupante” na lista das espécies ameaçadas de extinção, o que significa que a qualquer momento sua caça pode ser legalizada, como já fizeram com o jacaré e outras espécies superabundantes ao longo da história.

Pouco custa para algum nerd lunático fascinado em anime e quadrinhos comprar um arco e um punhado de flechas e começar a treinar tiro ao alvo no meio do mato. Logo ele leva seu arco para as convenções locais de animes e pode ser que a moda pega e mais um monte de outros nerds lunáticos comprem arcos também. E onde descarregar todo o instinto assassino acumulado em todos estes anos de RPG e vídeo games violentos? Nas seriemas que ficam dando bobeira no mato, é claro. E se os ruralistas no congresso estão conseguindo obliterar o código florestal brasileiro, dando respaldo legal para piorarem a situação das florestas — que já nem é tão boa — o que custa para os lunáticos (que deixaram de ser nerds para serem bárbaros selvagens) reivindicarem seus direitos de destruir o meio ambiente em prol do interesse próprio e conseguirem a legalização da caça com arco e flecha das seriemas? É claro que isto é uma situação hipotética — alguns diriam até absurda (outros nem tanto, depois de terem assistido à aprovação do novo Código Florestal Brasileiro) — mas ilustra o perigo real que correm as seriemas ao desobedecerem as regras da AFB e se exporem para os humanos.

Precisamente a mesma estrada que a dupla de amigos tomara para alcançar a represa é a estrada que o casal subversivo de seriemas escolheu para tomar sol. Em uma margem da estrada havia uma plantação, e na outra a borda de um dos blocos isolados de mata do serrado. O momento em que uma criatura de mais de uma tonelada se aproxima a 50 km/h, vestindo uma armadura metálica reluzente, é o momento em que se esvai de qualquer seriema o orgulho e a valentia que as faziam enfrentar o sistema, e elas se põem a correr desesperadamente. O motorista avista as seriemas na estrada, diminui a velocidade, e maldosamente se diverte ao ver seu terror ao fugirem da camionete. Ele sabia, que apesar de serem aves, elas são animais terrestres. Na verdade, ele nem sabia que elas podiam voar. Talvez, nem mesmo as próprias seriemas saibam que conseguem voar até que a situação aperte muito. Muita gente nem consideraria aquilo um voo de verdade, já que parece mais um pulo alto com farfalhar de asas, semelhante ao voo das galinhas, que muita gente também não considera um voo de verdade. Para estes, voar significa que você deve decolar, ter no ar controle e autonomia o suficiente para dar a volta na torre Eiffel (se você estiver em Paris) e pousar em segurança. Nem o pulo desajeitado das galinhas e seriemas, nem o arremessar de um planador no ar com um estilingue se encaixam nessa definição de voo.

Para surpresa do passageiro e satisfação do motorista, as seriemas fugiram do carro pela estrada, no sentido que a camionete ia, de modo que a perseguição ao casal durou algumas dezenas de metros, até que uma das aves, numa manobra ousada e mostra de total deslealdade com a companheira, se enfia no meio da plantação enquanto a outra continua fugindo do carro pela estrada. O motorista começou ficar intrigado, e começou a se perguntar por que a que sobrou também não fugia para a plantação, como a outra havia feito.

Fontes dizem que uma seriema pode sustentar a fuga de um carro em uma velocidade de até 25 quilômetros por hora. Pois esqueceram de avisar a esta seriema que este era seu limite, porque por um bom tempo ela sustentou uma fuga a quase 40 quilômetros por hora. O motorista, não sabendo que ela podia voar, vendo incapacidade do bicho de sair da estrada, e não querendo atropelá-lo, começou a ficar irritado. Perguntava em voz alta ao passageiro:

— Por que ela não sai da estrada?

— Eu sei lá! — respondia ele.

Então ele resolveu apelar para a manobra que os motoristas costumam utilizar quando o veículo da frente é uma lesma e eles estão com pressa: ultrapassagem. Ele desviou a camionete para a esquerda (cabiam ela e a seriema lado a lado na estrada, visto que a seriema não é muito larga para um automóvel) e começou a acelerar. Aí a seriema, que até o momento talvez não tenha ficado mais do que muito assustada, viu a coisa ficar feia e se desesperou. A criatura encouraçada estava ganhando terreno e se movimentando lateralmente, possivelmente em alguma manobra esperta de predador que se antecipa à trajetória da presa. A seriema não estava ainda desesperada o suficiente para voar, então fez a coisa mais inteligente que uma presa terrestre poderia fazer, e correu para o lado contrário ao escolhido pelo predador, finalmente entrando na plantação, a exemplo da companheira.

Naquela tarde, a seriema se gabou de como ela distraiu o predador para que a outra pudesse fugir, e então sozinha subjugou seu perseguidor, usando de sua astúcia e velocidade. Já na beira da represa, o motorista logo esqueceu o incidente, mas o passageiro que tinha um pouquinho mais de imaginação, e matutou o caso por um tempo, perguntou:

— Descobriu por que seriema não saía da estrada?

— Não. Por que?

— A seriema achava que ela era nossa presa, ela não imaginava que a gente estava simplesmente seguindo a estrada. Quando a primeira entrou na plantação, ela achou que tinha cinquenta por cento de chance de nós a seguirmos, mas que por acaso escolhemos a outra. Daí, não havia mais sentido para a outra desviar o seu caminho da linha reta, pois achava que para onde ela fosse, ela seria seguida por nós, inclusive dentro da plantação. Só mudou de atitude quando você jogou o carro para o lado, quando virar para o outro lado passou a ser uma rota de fuga melhor do que a linha reta. Ela foi vítima do próprio ego, achando que era importante o suficiente para ser perseguida pelo carro aonde quer que ela fosse.

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